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Existem no território guineense quatro regiões com assinalável
interesse para o ecoturismo ou turismo de Natureza. Uma delas, no
sul, está já integrada num parque nacional. E as autoridades do país sonham com
a classificação do arquipélago dos Bijagós como Património Mundial.
Viagem ao encontro das belezas naturais da
Guiné-Bissau.
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GUINÉ-BISSAU - TANTOS RIOS, TANTAS ILHAS
Uma breve observação do mapa dá conta da
singularidade do território
da Guiné-Bissau na
costa ocidental africana. Os países situados
imediatamente a norte e a sul,
Senegal,
Gâmbia,
Guiné-Conacri e
Serra Leoa, têm um litoral relativamente pouco
recortado, comparado com a costa guineense. Para além do extenso de número de
ilhas que formam o
arquipélago dos Bijagós, rios de significativos
caudais desaguam no Atlântico ao longo do litoral do país de Amílcar Cabral.
Depois das naus lusitanas ali ancorarem, em meados do século XV, o território
começou a ser justamente referenciado como os «Rios da Guiné» na setecentista
geografia lusitana.
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| Parque Nacional Cantanhez,
Guiné-Bissau |
Apesar da modesta dimensão do país, cerca de um terço de Portugal, a
Guiné-Bissau é caracterizada por razoável diversidade paisagística e
reúne vários ecossistemas. Ao longo de quase todo o litoral e no
arquipélago
dos Bijagós predomina a floresta de mangue, com extensões importantes no
contexto da
África Ocidental. Em certas regiões do interior leste o
cenário lembra a proximidade do
Sahel. No sul, perto da fronteira com a
Guiné-Conacri, há importantes manchas de floresta tropical. A necessidade de
assegurar a gestão desses espaços e de planear novas reservas naturais levou à
criação, em Dezembro de 2004, do Instituto da Biodiversidade e das Áreas
Protegidas (IBAP).
Em quase todas essas áreas, e com o envolvimento das comunidades locais,
estão em curso projectos de desenvolvimento de infra-estruturas e de actividades
geradoras de rendimento para as populações, como a apicultura, a pesca ou a
transformação do pescado. Um financiamento de onze milhões de dólares
assegurados pelo Banco Mundial, através do Fundo Mundial para o Ambiente, apoia
programas desenvolvidos em parcerias que associam o IBAP a várias entidades,
como ONG's locais e internacionais e, ainda, a World Conservation
Union.
TURISMO DE NATUREZA E O ARQUIPÉLAGO DOS BIJAGÓS
A
Reserva Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu é a área protegida mais
próxima da capital e a de mais fácil acesso. Dos oitenta mil hectares que
constituem a área do parque, localizado junto à fronteira com a província
senegalesa de
Casamansa, quase 70 por cento estão cobertos de floresta de
mangue. É o maior bloco contínuo de mangal (que em crioulo se designa por
tarrafe) de toda a África Ocidental.
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| Parque Nacional Cantanhez,
Guiné-Bissau |
No centro do país, muito próximo da cidade de
Buba, está o
Parque
Natural das Lagoas da Cufada, a maior lagoa de água doce do país, que se
estende por quase noventa mil hectares. Para além da fauna autóctone, é um
importante ponto de acolhimento de aves europeias que ali vão passar o
Inverno.
O
Parque Nacional das Florestas de Cantanhez, no sul, é a mais recente
área natural da Guiné a ser objecto de protecção legal. A reserva foi criada por
decisão governamental em Março de 2007. As matas de Cantanhez, situadas ao longo
da
fronteira com a Guiné-Conacri, constituem a última mancha de floresta
primária da Guiné-Bissau e são
habitat de várias espécies. A zona acolhe,
nomeadamente, populações de chimpanzés que estão a ser objecto de estudo.
O
arquipélago dos Bijagós, com cerca de 80 ilhas, é o espaço natural
guineense mais conhecido além-fronteiras e o que beneficia há mais tempo de um
regime de protecção - desde 1996 que integra a Reserva da Biosfera. As zonas
mais antigas abrangidas por protecção oficial (desde Agosto de 2000) são o
Parque Nacional de Orango e o
Parque Nacional Marinho de João Vieira e
Poilão, que se situam no sul e sudeste do arquipélago. O primeiro ocupa uma
área de quase 160 mil hectares e compreende
cinco ilhas -
Orango,
Orangozinho, Meneque, Canogo e Imbone - e, ainda, um punhado de ilhéus. Na
zona norte do arquipélago há ainda uma outra reserva, a
Área Marinha
Protegida Comunitária das ilhas Formosa, Nago e Cheidã.
O turismo de natureza tem ainda pouca expressão no país, embora a valorização
dos recursos naturais passe também, a nível oficial, pelo desenvolvimento de
actividades desse tipo. Estão previstas acções concertadas entre o IBAP e as
autoridades guineenses que tutelam o turismo, designadamente a elaboração de um
plano director para o desenvolvimento turístico nas ilhas e noutras
áreas
protegidas. Mas a decisão recente mais relevante do IBAP e do governo
guineense foi a apresentação de uma candidatura das áreas protegidas do
arquipélago dos Bijagós a
Património Mundial, aguardando-se agora
a decisão da
UNESCO.
HIPOPÓTAMOS, CROCODILOS, TARTARUGAS
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| Ilha de João Vieira, no arquipélago
dos Bijagós |
Nenhuma surpresa:
Bolama, a primeira capital da Guiné, é um cenário
com marcas do tempo. Há casario colonial em ruína, outro retoma fôlego, quiçá
por mais algumas décadas, até à eventual retoma do ciclo de decadência. Contudo,
como acontece com outras dos Bijagós, a ilha tem um potencial peculiar para
reviver a experiência de Lázaro. Mas seria preciso, naturalmente, que o país, ou
a política da capital, levasse outro rumo. Ainda assim, vale a pena a
navegação de três horas
de Bissau a Bolama em canoa pública
sobrelotada, a baloiçar no fio da navalha. A gasolina chega?, não chega?,
perder-se-á a barca Air Afrique à deriva, como acontece por vezes como outras
naves? Para já, o Biricumba, mais leve, mais rápido, quase vazio!, deixa-nos
para trás... e longe da vista está, ainda, a floresta densa que habita a mais
próxima ínsula do arquipélago.
Os outros Bijagós são superlativos
santuários de natureza.
Bubaque é um bom ponto de partida para a exploração das
ilhas, a
não ser que se contrate previamente, a partir de Bissau, incursões a
Orango e a
João Vieira, por exemplo. No Parque Nacional de Orango,
para além das
aves migradoras e locais que nidificam nas ilhas, há várias
espécies de
mamíferos aquáticos: hipopótamos, crocodilos, lontras,
tartarugas e golfinhos. Em terra, as florestas são morada de macacos e gazelas.
O Parque Nacional Marinho de João Vieira e Poilão abrange quatro ilhas que não
são habitadas permanentemente e que apenas são utilizadas pelas populações das
tabancas de
Canhambaque para fins cerimoniais e agrícolas. A ilha
é o local mais importante de todo o Atlântico Oriental para a desova da
tartaruga verde.
ÁGUAS MIL
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| Embarcação no rio
Cacheu |
Uma rua, apenas uma rua, que depois se transforma na estrada para
Canchungo, e uma praça de tonalidade vagamente colonial. Aquela que foi a
primeira cidade fundada pelos portugueses na região conserva ainda um pequeno
forte, assaz modesto como testemunho simbólico. Ribeirinha, a praça tem no
centro uma laje ostensiva (a evocar uma vela ou uma proa?), de onde foram
raspados os símbolos do ex-ocupante. E, aos pés, o rio, o grande
rio
Cacheu, cujas águas mil mal deixam ver na outra margem a imensa mancha de
floresta de mangue que se estende até à fronteira com o
Senegal. A canoa
pública, uma barcaça de madeira com capacidade para meia centena de passageiros,
há-de sair quando a maré estiver de feição, requisito imprescindível para se
navegar nos copiosos rios da Guiné. São duas, três horas, até São Domingos,
povoado fronteiriço. Pelo caminho, com sorte, entre os belos meandros com que o
rio abraça os mangais, avistar-se-á alguma da fauna local. E com toda a certeza
navegaremos por momentos a par das minúsculas canoas com que os pescadores das
tabancas da zona andam diariamente à pesca e na faina da recolha de ostras.
A
Reserva Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu, que faz justiça à aura
de paraíso de mangais, abriga nos seus 80 mil hectares duas centenas de espécies
de aves, incluindo flamingos e papagaios. Mas existem, também, embora nem sempre
ao alcance do olhar do viajante, crocodilos, hipopótamos, gazelas, hienas e
macacos.
AVES DE PASSAGEM
À primeira vista, é o que a nossa ria de Aveiro poderia ser, não fosse o
betão a ferir, por cá, a paisagem em todos os quadrantes. A Lagoa da Cufada é
uma rede de espelhos de água e planuras verdes rodeada por floresta que resiste
bem ao estio africano. A
época das chuvas na Guiné começa em Maio, mas
mesmo com escassas águas, não falta viço à paisagem.
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| Parque Natural das Lagoas da
Cufada |
As
Lagoas da Cufada estão classificadas como “zona húmida de
importância internacional”, tendo a Guiné-Bissau aderido à Convenção de Ramsar
e, em sequência, criado um regime legal de protecção dos ecossistemas locais. O
Instituto de Conservação da Natureza, juntamente com outras entidades
portuguesas, participou na preparação e realização do projecto do parque.
O
Parque Natural das Lagoas da Cufada abrange uma área de noventa mil
hectares, na qual está inserida uma comunidade de cerca de três mil pessoas
distribuídas por trinta e três
tabancas. Os passeios pelas lagoas
permitem a observação de várias espécies de aves, residentes ou migradoras, como
flamingos, pelicanos e tucanos. Entre a fauna aquática abundam mamíferos como
hipopótamos,
manatins e
crocodilos. Em terra, com sorte, o
olhar do visitante pode tropeçar ocasionalmente com gazelas, porcos do mato e
antílopes.
REINO DE CHIMPANZÉS
A partir do cruzamento de
Mampatá, a estrada ruma em direcção a sul e
segue depois paralela à fronteira com a
Guiné-Conacri. É uma picada longa
e estreita, de terra vermelha, entre palmares e floresta seca, e solitários
embondeiros, que atravessa uma região que nos tempos coloniais estava sob firme
controlo do PAIGC e onde se travaram algumas das mais duras batalhas da guerra
de libertação. Em
Guileje contornamos a rede de afluentes do
Rio
Cacine e ao fim de mais duas horas de solavancos chegamos a
Jemberem,
no cerne das florestas sagradas do sul. No dia seguinte, de madrugada, partimos
a pé para o
Mato de Cambeque, tentando um encontro com um dos vários
grupos de
chimpanzés que habitam as florestas tropicais guineenses.
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| Bolama, arquipélago dos
Bijagós |
A
floresta húmida que caracteriza as catorze matas que constituem o
Parque Nacional de Cantanhez cobre uma área superior a 100 mil hectares e
conserva flora rara. Entre a fauna, para além de chimpanzés, há várias espécies
de macacos, como o macaco fidalgo, e, ainda, antílopes, gazelas, pavões e várias
espécies de tucanos. O
WWF classifica
as matas de Cantanhez como uma das
duzentas eco-regiões mais importantes
do mundo.
Mesmo antes da criação oficial do parque já havia restrições a algumas
actividades como a caça e o desmatamento para cultivo de arroz. Tendo em vista o
perspectivado desenvolvimento do turismo de natureza, a direcção do parque, com
a cooperação da AD (Acção para o Desenvolvimento), uma ONG, formou dezena e meia
de guias. Com os novos
bungalows praticamente concluídos, a reserva está
pronta para receber visitantes.